Tratamento da obesidade: como é feito e quais são as opções?

Tratamento da obesidade: como é feito e quais são as opções?

A obesidade não se resume à força de vontade e não deve ser tratada como um problema que se resolve com uma dieta temporária.

Ela é uma doença crônica, complexa e multifatorial, influenciada por fatores biológicos, metabólicos, comportamentais, psicológicos, ambientais e sociais. Além do excesso de gordura corporal, a obesidade pode estar associada a hipertensão arterial, diabetes tipo 2, alterações do colesterol e triglicerídeos, apneia do sono, doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica e maior risco cardiovascular.

Por isso, o tratamento da obesidade não deve ter como único objetivo reduzir o número apresentado pela balança.

O tratamento adequado busca melhorar a saúde como um todo, reduzir riscos, preservar a massa muscular, controlar doenças associadas e construir estratégias que possam ser mantidas ao longo do tempo.

Como é feita a avaliação da obesidade?

O primeiro passo é compreender quem é o paciente e quais são os fatores envolvidos em seu ganho de peso e em sua saúde atual.

O índice de massa corporal (IMC) continua sendo uma medida útil para classificação populacional e para a avaliação clínica inicial, mas não deve ser utilizado isoladamente para definir o estado de saúde de uma pessoa.

Duas pessoas com o mesmo IMC podem apresentar quantidades muito diferentes de gordura corporal, massa muscular, distribuição de gordura e risco cardiometabólico.

Por isso, a avaliação pode considerar:

  • histórico de peso e tentativas anteriores de tratamento;
  • distribuição da gordura corporal;
  • composição corporal;
  • circunferência abdominal;
  • pressão arterial;
  • glicemia e hemoglobina glicada;
  • colesterol e triglicerídeos;
  • função hepática;
  • qualidade do sono;
  • presença de ronco ou sintomas sugestivos de apneia;
  • nível de atividade física;
  • alimentação;
  • medicamentos em uso;
  • histórico familiar;
  • saúde mental e comportamento alimentar;
  • doenças associadas à obesidade.

Essa avaliação cardiometabólica ajuda a definir quais são as prioridades do tratamento, que podem ser diferentes de uma pessoa para outra.

Por que avaliar o risco cardiometabólico?

A obesidade está intimamente relacionada à saúde cardiovascular e metabólica.

O excesso de gordura corporal, especialmente quando acompanhado de maior acúmulo de gordura abdominal, pode estar associado a resistência à insulina, alterações do perfil lipídico, hipertensão e maior risco de diabetes tipo 2 e doença cardiovascular.

Por isso, tratar a obesidade também significa identificar e controlar os fatores que aumentam esse risco.

Dependendo do quadro clínico, a avaliação pode incluir exames laboratoriais e cardiovasculares. Eletrocardiograma, ecocardiograma, MAPA, Holter ou outros exames não são obrigatórios para todas as pessoas com obesidade. Sua indicação depende dos sintomas, fatores de risco, histórico e avaliação médica.

Essa individualização é importante para evitar tanto a realização indiscriminada de exames quanto a falta de investigação quando ela realmente é necessária.

Composição corporal: o que existe além do peso?

A balança informa o peso corporal, mas não mostra diretamente quanto desse peso corresponde a gordura, massa muscular ou água.

A bioimpedância pode fornecer estimativas de diferentes componentes da composição corporal, como percentual de gordura, massa livre de gordura, massa muscular estimada e gordura visceral, conforme o equipamento utilizado.

Essas informações podem ser especialmente úteis durante o acompanhamento da obesidade.

Uma pessoa pode perder peso e também perder quantidade significativa de massa muscular. Outra pode apresentar uma redução mais discreta do peso, mas diminuir gordura corporal e preservar melhor a massa muscular.

Por isso, acompanhar apenas os quilos perdidos pode não mostrar toda a evolução do tratamento.

A composição corporal deve ser interpretada dentro do contexto clínico e não como um conjunto de números isolados.

O papel da calorimetria indireta no tratamento da obesidade

O gasto energético varia entre indivíduos e pode sofrer influência de características corporais, idade, sexo, atividade física e outras condições.

A calorimetria indireta é um método que pode medir o gasto energético de repouso a partir das trocas gasosas do organismo.

Ela não é necessária para todas as pessoas com obesidade, mas pode ser considerada em situações selecionadas quando existe interesse clínico em avaliar o gasto energético de repouso com maior precisão.

É importante diferenciá-la da estimativa de gasto energético apresentada por alguns equipamentos de bioimpedância.

Assim, bioimpedância e calorimetria indireta fornecem informações diferentes e podem ser complementares, quando houver indicação.

Mudanças de estilo de vida continuam sendo parte do tratamento

Alimentação, atividade física, sono e comportamento são componentes fundamentais do tratamento da obesidade.

Isso não significa simplesmente entregar uma lista de alimentos proibidos ou recomendar “fechar a boca e fazer exercício”.

Uma estratégia alimentar precisa considerar a rotina, preferências, condições clínicas, capacidade de adesão, contexto familiar e objetivos terapêuticos.

A alimentação deve favorecer um padrão nutricional adequado, com atenção à qualidade dos alimentos, ingestão proteica, fibras e adequação energética, evitando restrições desnecessárias que possam comprometer a sustentabilidade do tratamento.

A atividade física também vai além de “queimar calorias”.

Exercícios aeróbicos contribuem para a saúde cardiovascular e metabólica, enquanto o treinamento de força tem papel particularmente importante na preservação da massa muscular durante a perda de peso.

A escolha da atividade deve considerar condicionamento físico, limitações, doenças associadas e, quando necessário, avaliação médica prévia.

Sono, comportamento alimentar e saúde mental também importam

A obesidade não pode ser compreendida apenas pela relação entre alimentação e gasto energético.

Sono insuficiente, estresse, alterações do humor e determinados padrões de comportamento alimentar podem interferir na fome, saciedade, escolhas alimentares e capacidade de manter uma rotina saudável.

Pessoas com compulsão alimentar ou sofrimento psicológico relacionado à alimentação podem se beneficiar de avaliação e acompanhamento específicos.

Nessas situações, psicologia ou psiquiatria podem fazer parte do tratamento.

Cuidar desses fatores não significa atribuir a obesidade à falta de controle emocional. Significa reconhecer que o tratamento precisa considerar todas as dimensões que interferem na saúde e na manutenção das mudanças.

Quando os medicamentos para obesidade podem ser indicados?

A farmacoterapia pode fazer parte do tratamento de pessoas com obesidade quando existe indicação clínica. Durante o processo, o acompanhamento precisa considerar não apenas o peso, mas também como preservar massa muscular e força durante o emagrecimento com medicamentos.

A decisão não deve ser baseada apenas no desejo de perder peso rapidamente. Ela considera o grau de obesidade, presença de comorbidades, risco cardiometabólico, histórico de tratamentos anteriores, resposta às intervenções realizadas, contraindicações e características individuais.

Atualmente existem medicamentos que atuam em mecanismos relacionados à regulação do apetite, saciedade e metabolismo, incluindo terapias baseadas em vias incretínicas. A escolha do tratamento deve ser feita por profissional habilitado e de acordo com as indicações e características de cada medicamento, conforme abordado em nosso artigo sobre tratamento médico da obesidade com segurança.

Esses tratamentos podem apresentar efeitos adversos e contraindicações. Náuseas, vômitos, constipação, diarreia e outros sintomas gastrointestinais podem ocorrer com alguns medicamentos, especialmente durante o início ou ajuste do tratamento.

Por isso, medicamento para obesidade não deve ser utilizado por conta própria.

A escolha de um medicamento também não significa abandonar alimentação, atividade física ou acompanhamento clínico. Na abordagem atual da obesidade, a farmacoterapia pode integrar um plano terapêutico mais amplo.

A ABESO e outras entidades médicas brasileiras vêm atualizando as recomendações sobre tratamento farmacológico da obesidade à medida que novas evidências e terapias se tornam disponíveis.

O tratamento precisa considerar a preservação da massa muscular

Uma preocupação importante durante a perda de peso é a preservação da massa muscular.

A redução do peso corporal pode envolver diferentes proporções de gordura, água e massa livre de gordura. Por isso, o acompanhamento não deve considerar apenas o peso total.

Alimentação adequada, ingestão suficiente de proteínas quando indicada, treinamento de força e acompanhamento da composição corporal podem fazer parte de uma estratégia voltada à preservação da massa muscular.

Essa questão se torna especialmente relevante em pessoas mais velhas, em indivíduos que apresentam baixa massa muscular e em situações nas quais existe maior risco de perda de tecido muscular.

Emagrecer não deve significar simplesmente pesar menos.

O objetivo é buscar uma melhora global da saúde e da composição corporal, dentro das possibilidades e necessidades de cada pessoa.

Quando a cirurgia bariátrica pode ser considerada?

A cirurgia bariátrica e metabólica é uma opção terapêutica para pessoas selecionadas com obesidade, especialmente em situações de maior gravidade ou quando existem doenças associadas relevantes.

A indicação não deve ser baseada exclusivamente em um número de IMC. Ela envolve avaliação clínica, gravidade da doença, comorbidades, histórico de tratamento, riscos e capacidade de manter o acompanhamento necessário.

A cirurgia pode proporcionar perda de peso importante e melhorar diversas condições relacionadas à obesidade, mas não representa uma solução automática ou definitiva para todos os fatores envolvidos na doença.

O acompanhamento antes e depois do procedimento é fundamental.

Após a cirurgia, é necessário monitorar aspectos como composição corporal, ingestão proteica, micronutrientes, adaptação alimentar e controle das doenças associadas.

Por que o tratamento da obesidade precisa ser contínuo?

A obesidade é uma doença crônica. Por isso, o acompanhamento não deve terminar quando determinado peso é atingido.

Durante e após a perda de peso, podem ocorrer mudanças no apetite, gasto energético, rotina e comportamento. Algumas pessoas também apresentam recuperação parcial do peso ao longo do tempo.

Isso não significa falta de força de vontade ou fracasso pessoal.

A necessidade de manutenção e, em alguns casos, de ajustes no tratamento faz parte da própria natureza crônica da doença.

Consultas periódicas permitem avaliar:

  • evolução do peso e da composição corporal;
  • pressão arterial;
  • glicemia;
  • perfil lipídico;
  • sintomas;
  • efeitos adversos dos medicamentos;
  • massa muscular;
  • alimentação;
  • atividade física;
  • sono;
  • saúde mental;
  • necessidade de ajustar a estratégia terapêutica.

Existe um tratamento ideal para todas as pessoas?

Não.

Uma pessoa pode apresentar boa resposta a mudanças estruturadas de alimentação, atividade física e comportamento. Outra pode precisar de tratamento farmacológico. Em alguns casos, a cirurgia pode ser considerada.

Também é possível que diferentes estratégias sejam combinadas ao longo do tratamento.

A melhor abordagem é aquela que considera a gravidade da obesidade, o risco cardiometabólico, as doenças associadas, a composição corporal, as preferências do paciente, a segurança e a possibilidade de manutenção a longo prazo.

Por isso, copiar a estratégia utilizada por outra pessoa pode não ser adequado.

Como a Clínica Epicárdio aborda a obesidade?

Na Clínica Epicárdio, a obesidade é entendida dentro de uma perspectiva cardiometabólica e nutricional, e não apenas como uma questão de peso.

A avaliação pode integrar informações clínicas, fatores de risco cardiovascular, composição corporal e aspectos relacionados ao metabolismo e à nutrição.

Quando indicado, recursos como bioimpedância e calorimetria indireta podem complementar a avaliação, contribuindo para compreender melhor a composição corporal e o gasto energético de repouso.

O acompanhamento também pode envolver diferentes profissionais, conforme as necessidades de cada paciente.

O objetivo é construir uma estratégia individualizada, com metas clínicas mensuráveis e acompanhamento ao longo do tempo.

Quando procurar avaliação para tratar a obesidade?

Uma avaliação pode ser especialmente importante quando existe:

  • dificuldade persistente para controlar o peso;
  • ganho de peso progressivo;
  • diabetes ou pré-diabetes;
  • hipertensão;
  • alterações de colesterol ou triglicerídeos;
  • gordura no fígado;
  • suspeita de apneia do sono;
  • perda importante de massa muscular;
  • histórico de várias tentativas de emagrecimento com recuperação do peso;
  • interesse em avaliar opções de tratamento medicamentoso ou cirúrgico.

O tratamento da obesidade não precisa começar pela escolha de um medicamento ou de uma dieta.

Ele começa pela compreensão do quadro clínico de cada pessoa.

Na Clínica Epicárdio, essa avaliação pode integrar cardiometabolismo, composição corporal, metabolismo e terapia nutricional, permitindo que as decisões sejam tomadas de acordo com as necessidades e características individuais.

Tratar a obesidade com seriedade é substituir culpa por cuidado, improvisação por acompanhamento e metas exclusivamente relacionadas ao peso por objetivos que realmente contribuam para a saúde e a qualidade de vida.

Respostas

  1. […] existe um único exame capaz de explicar a obesidade. A avaliação inicial do tratamento da obesidade deve reunir história clínica detalhada, hábitos de vida, medicamentos em uso, doenças prévias, […]

  2. […] melhor sua composição corporal, acompanhar mudanças durante um processo de emagrecimento, no tratamento da obesidade ou preservar massa muscular, uma avaliação individualizada pode ajudar a definir quais […]

  3. […] O resultado pode ser utilizado como um dos componentes para estimar o gasto energético total e, a partir daí, auxiliar na definição de uma estratégia alimentar personalizada, compatível com o objetivo do tratamento da obesidade. […]

  4. […] ou dificuldade persistente para alcançar resultados com medidas comportamentais isoladas, o tratamento da obesidade com medicamentos pode fazer parte da […]

  5. […] outras, especialmente quando já existe pré-diabetes, diabetes, tratamento da obesidade ou alto risco cardiovascular, pode ser necessário associar tratamento medicamentoso ao […]

  6. […] Dependendo do risco e das alterações encontradas, pode ser necessário utilizar medicamentos para hipertensão, diabetes, colesterol ou tratamento da obesidade. […]

  7. […] isso, quando existe dificuldade persistente para emagrecer, a melhor estratégia não é simplesmente restringir cada vez mais a alimentação. É compreender […]

  8. […] tratamento da obesidade deve ser individualizado e baseado nas características e necessidades de cada […]

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