A fibrilação atrial é uma das arritmias cardíacas mais frequentes e merece atenção por uma razão que vai além das palpitações: ela pode aumentar o risco de acidente vascular cerebral (AVC).
Em algumas pessoas, a fibrilação atrial provoca coração acelerado ou irregular, falta de ar, cansaço ou tontura. Em outras, pode ocorrer praticamente sem sintomas.
Por isso, depois do diagnóstico, uma das perguntas mais importantes é:
qual é o risco de AVC e o que pode ser feito para reduzi-lo?
Fibrilação atrial e AVC: qual é a relação?
Na fibrilação atrial, a atividade elétrica dos átrios — as câmaras superiores do coração — torna-se desorganizada.
Com isso, a contração atrial deixa de ocorrer normalmente e pode haver maior estase de sangue, especialmente no apêndice atrial esquerdo.
Essa condição favorece a formação de coágulos.
Se um coágulo se desprender e alcançar a circulação cerebral, pode obstruir uma artéria e provocar um AVC isquêmico.
Esse é o principal mecanismo que explica a relação entre fibrilação atrial e AVC.
Toda pessoa com fibrilação atrial tem o mesmo risco de AVC?
Não.
O risco varia de acordo com as características de cada pessoa.
Entre os fatores considerados estão:
- insuficiência cardíaca
- hipertensão arterial
- idade
- diabetes
- AVC, ataque isquêmico transitório ou embolia prévios
- doença vascular
Atualmente, uma das ferramentas utilizadas para auxiliar nessa avaliação é o CHA₂DS₂-VA.
O escore não substitui a avaliação médica, mas ajuda a identificar pessoas nas quais a anticoagulação pode trazer benefício na prevenção de eventos tromboembólicos.
Além disso, outros aspectos clínicos precisam ser considerados, incluindo risco de sangramento, função renal, medicamentos utilizados e outras doenças associadas.
Por isso, duas pessoas com fibrilação atrial podem receber estratégias preventivas diferentes.
O desafio da fibrilação atrial que passa despercebida
Algumas pessoas apresentam sintomas como:
- palpitações
- coração acelerado ou irregular
- cansaço fora do habitual
- falta de ar
- tontura
- redução da tolerância ao esforço
Mas a fibrilação atrial também pode ocorrer sem sintomas perceptíveis.
Além disso, a arritmia pode ser intermitente: aparece durante algumas horas ou dias e depois desaparece.
Por isso, um eletrocardiograma normal realizado em determinado momento não necessariamente exclui episódios intermitentes de arritmia.
Quais exames podem ajudar na investigação?
O eletrocardiograma (ECG) é fundamental para documentar a fibrilação atrial quando ela está presente no momento do exame.
Quando existe suspeita de episódios intermitentes, o Holter ou outras formas de monitorização prolongada do ritmo podem aumentar a possibilidade de registrar a arritmia.
O ecocardiograma pode complementar a avaliação ao estudar a estrutura e a função do coração, incluindo tamanho dos átrios, função ventricular e presença de determinadas doenças valvares.
Outros exames são indicados conforme o contexto clínico.
Como reduzir o risco de AVC na fibrilação atrial?
Uma das principais estratégias é identificar corretamente quem se beneficia de anticoagulação oral.
Os anticoagulantes diminuem a formação de coágulos e reduzem o risco de eventos tromboembólicos em pessoas com indicação para o tratamento.
Entretanto, anticoagulação não é necessária da mesma forma para todos.
A decisão considera o risco de AVC, o risco de sangramento, outras doenças, função renal, medicamentos utilizados e características individuais.
Anticoagulantes não devem ser iniciados, suspensos ou ter sua dose modificada sem orientação médica.
Aspirina substitui o anticoagulante?
Em geral, não.
A aspirina é um medicamento antiplaquetário e não oferece a mesma proteção que a anticoagulação oral para prevenção do AVC relacionado à fibrilação atrial quando existe indicação de anticoagulante.
Por isso, não deve ser utilizada como uma substituição automática da anticoagulação.
Da mesma forma, quem utiliza anticoagulante deve informar ao médico outros medicamentos em uso, incluindo anti-inflamatórios e suplementos, devido ao potencial de interações e aumento do risco de sangramento.
Controlar o ritmo elimina o risco de AVC?
Não necessariamente.
O tratamento da fibrilação atrial pode envolver:
- controle da frequência cardíaca
- medicamentos para controle do ritmo
- cardioversão elétrica
- ablação por cateter
Essas estratégias podem reduzir sintomas e, em situações selecionadas, trazer outros benefícios clínicos.
Entretanto, recuperar ou manter o ritmo sinusal não significa automaticamente que a anticoagulação possa ser suspensa.
A necessidade de anticoagulação continua sendo determinada principalmente pelo risco tromboembólico individual e deve ser reavaliada ao longo do acompanhamento.
Controlar pressão, peso e metabolismo também importa
O tratamento moderno da fibrilação atrial não se limita ao controle da arritmia.
Hipertensão, diabetes, obesidade, insuficiência cardíaca, apneia obstrutiva do sono, sedentarismo e consumo elevado de álcool estão entre as condições que podem se relacionar à fibrilação atrial e aos seus desfechos.
Por isso, o cuidado pode incluir:
- controle adequado da pressão arterial
- tratamento do diabetes
- manejo da obesidade quando presente
- atividade física adequada à condição clínica
- investigação e tratamento da apneia do sono quando indicada
- redução do consumo excessivo de álcool
- abandono do tabagismo
Essa abordagem integrada faz parte do cuidado cardiovascular e cardiometabólico da pessoa com fibrilação atrial.
O risco precisa ser reavaliado ao longo do tempo
O risco de AVC não é necessariamente estático.
Uma pessoa pode desenvolver hipertensão, diabetes, doença vascular ou atingir uma faixa etária que modifique seu risco.
Da mesma forma, função renal, peso, medicamentos e risco de sangramento podem mudar.
Por isso, a avaliação da fibrilação atrial deve ser dinâmica, com reavaliações periódicas.
Quando procurar atendimento imediatamente?
Alguns sinais podem indicar um AVC e exigem atendimento de urgência.
Procure atendimento imediatamente diante do surgimento súbito de:
- fraqueza ou dormência em um lado do corpo
- dificuldade para falar ou compreender
- desvio da boca
- perda ou alteração súbita da visão
- dificuldade importante para caminhar ou manter o equilíbrio
- outros sintomas neurológicos súbitos
Nessas situações, não espere os sintomas melhorarem espontaneamente.
Fibrilação atrial: prevenir o AVC faz parte do tratamento
Tratar fibrilação atrial não significa apenas controlar palpitações ou normalizar o ritmo cardíaco.
É necessário avaliar também risco de AVC, necessidade de anticoagulação, sintomas, doenças associadas e fatores cardiometabólicos.
Essa abordagem permite individualizar o tratamento e reavaliá-lo conforme as condições da pessoa mudam ao longo do tempo.
Na fibrilação atrial, cuidar do ritmo é importante. Proteger o cérebro também.

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